In Business Trends & Strategy, Eco-political analysis

Elaborado por John Price e Jerry Haar

 

A eleição de um presidente populista de direita no Brasil e de um esquerdista no México, conflitos comerciais, emigração em massa da população venezuelana, violência das drogas, mudanças demográficas e a invasão de novos modelos de negócios baseados em aplicativos estão abalando a América Latina. Por mais caóticas que algumas dessas mudanças pareçam, a disrupção também resulta em avanços no campo da ciência e da saúde, na redução do subemprego, no aumento do envolvimento dos cidadãos e na criação de riqueza.

Os impactos mais arrebatadores da disrupção latino-americana são nitidamente no setor empresarial. Vejamos o caso dos transportes. A Uber começou a operar na capital do México em 2013 com 20 motoristas. No início de 2019, cerca de 500 mil motoristas e 12 milhões de clientes utilizam a Uber todos os meses – o que corresponde a 15% dos adultos mexicanos. O sucesso da Uber no México e nos maiores mercados da América Latina não é uma anomalia. Atualmente, a América Latina é a região do mundo que registra o maior crescimento de modelos de negócios disruptivos, como Airbnb, Coursera e Netflix.

As duas áreas mais propensas à disrupção na América Latina 

A Televisa e a TV Azteca no México e a Rede Globo no Brasil dominam a televisão tradicional, limitando as opções de programação. Não é de se admirar que a Netflix prospere nesses dois países. Em 2017, os mexicanos assistiram a mais conteúdos da Netflix por usuário que qualquer outro dos 190 mercados mundiais em que a empresa está presente. De fato, cinco dos dez países no mundo onde as pessoas mais assistem à Netflix situam-se na América Latina: Peru (3°), Chile (5°), Brasil (6°) e Argentina (7°).

No quesito educação, o sistema de ensino público da América Latina, que recebe mais recursos financeiros (em percentual do PIB) que a maioria dos países asiáticos, produz sistematicamente resultados abaixo do esperado: os alunos registram pontuações muito inferiores às de seus pares globais no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) e em outras avaliações. A região já demonstrou ser um mercado promissor para plataformas digitais de ensino. Maior empresa mundial do mercado de Cursos Online Abertos e Massivos (MOOC, na sigla em inglês), a Coursera informou em 2017 que o número de matrículas cresceu mais rapidamente em países latino-americanos do que em qualquer outra região do mundo. Empresas de educação digital como as espanholas Miríada X e Telefónica, a brasileira Kroton, a Open English e a Pearson são alguns dos líderes disruptivos do setor educacional em todos os níveis de aprendizagem.

Principais forças disruptivas da América Latina

A disrupção triunfa explorando as fraquezas econômicas da América Latina. O desemprego estatisticamente baixo na América Latina contradiz a taxa de subemprego de 20-30% da força de trabalho. Uma legislação trabalhista rígida e onerosa obriga até 50% dos empregadores a operar na informalidade, negando aos empregados benefícios previstos em lei. Como seria de se esperar, os modelos de negócios da chamada economia sob demanda (gig economy), que oferecem trabalhos flexíveis, são recebidos com entusiasmo. Muito antes do surgimento da Uber, empresas de marketing multinível como Avon, Amway e Herbalife alcançaram um enorme sucesso na América Latina conferindo autonomia ao grupo demográfico com a maior taxa de subemprego: as mulheres.

A disrupção proporcionará às economias latino-americanas um novo nível de concorrência e transparência ao promover uma reviravolta em diversos setores, como no de varejo, logística, turismo, saúde e de aluguel de carros. Entre outros exemplos, taxistas que infamemente sonegavam imposto de renda no passado estão sendo substituídos por motoristas da Uber que cumprem todas as suas obrigações fiscais – para o deleite de tecnocratas honestos que trabalham no governo. Durante décadas, os governos latino-americanos não conseguiram modernizar e formalizar grandes porções de suas economias de serviços. Agora, essa tarefa será levada a cabo por aplicativos móveis e empreendedores ousados.

As desvantagens da disrupção

É claro que nem todas essas mudanças serão positivas. Substituir milhares de empresas de táxi pela Uber e por alguns imitadores pode criar novos empregos para motoristas subutilizados, mas, ao mesmo tempo, destrói uma classe de comerciantes de classe média de proprietários de empresas de táxi. Modelos de serviços disruptivos baseados em software podem polarizar os níveis de renda ao levar pequenos empresários ineficientes à falência. Se o impressionante nível de adoção de modelos de negócios disruptivos na América Latina continuar descontrolado, centenas de milhares de pequenas empresas serão substituídas por novos modelos de negócios (muitas vezes de propriedade estrangeira) e, consequentemente, fecharão as portas. Esse cenário fatalmente terá repercussões políticas em uma região com poucos recursos ou experiência para reciclar sua força de trabalho. Assim como a globalização e a automação provocaram demissões politicamente explosivas na América do Norte e na Europa, alguns preveem uma reação igualmente polêmica à iminente disrupção no setor de serviços de mercados emergentes, começando pela América Latina.

Em todo o mundo, as perspectivas para 2019 são de volatilidade e disrupção – tanto positivas como negativas. Os impactos transcendem o nível macro e afetam diretamente o setor empresarial. Na América Latina, triunfarão os países, setores e empresas que abraçarem as mudanças. Aqueles que optarem por ignorar ou lutar contra as forças disruptivas acabarão ficando para trás.

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John Price é diretor-executivo da Americas Market Intelligence. Jerry Haar é professor da Faculdade de Administração de Empresas da Universidade Internacional da Flórida e Membro Global (Global Fellow) do Centro Woodrow Wilson em Washington, D.C. Os dois são coautores do livro Can Latin America Compete?

 

 

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