In Payments

Estamos prestes a vivenciar uma revolução nos meios de pagamentos no Brasil. Em novembro deste ano começará o Pix, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, que já  conta com 980 instituições inscritas.

Há quem diga que a última revolução similar a esta do Pix foi a implantação do SPB (Sistema Brasileiro de Pagamentos) em 2002.   E tudo indica que sim…

O Pix além de permitir transferências instantâneas 24 horas por dia e 7 dias por semana, permitirá neste primeiro momento que pagamentos sejam feitos:

(i)  via celular, usando o aplicativo do banco ou prestador de serviço;

(ii)  via chaves (ver abaixo);  recebedores não precisarão mais dividir seus dados bancários com os pagadores;

(iii) via QR codes.

E ainda, obrigatoriamente sem custo para pessoa física. Para pessoas jurídicas as instituições poderão cobrar uma tarifa, que ainda não foi divulgada.

Estas são as funcionalidades iniciais; outras já estão previstas para serem integradas ao Pix, conforme linha do tempo abaixo:

O que são as chaves?

Banco Central definiu chaves como “apelidos” para identificar uma conta e iniciar uma transferência, tendo como principais características:

  1. Chave pode ser número do telefone, email, CPF/CNPJ, ou uma chave aleatória;
  2. Pode-se associar uma chave por conta, sendo que cada pessoa física pode cadastrar até 5 chaves, e as jurídicas até 20.

A chave é um facilitador, não sendo obrigatória. Ou seja, pode-se  continuar a fazer transferências com dados bancários, porém é recomendado o uso das chaves para se aproveitar todas os benefícios do Pix, dentre eles a facilidade em se realizar as transações.

Onde são esperados os maiores impactos do Pix? 

O que vem preocupando as grandes instituições é a iminente perda de receita, uma vez que transferências P2P[1] via Pix não poderão ser tarifadas. Segundo relatório do Morgan Stanley, estima-se que em 2019, bancos brasileiros ganharam R$ 2,2 bilhões em processamento de TED/DOC e R$ 5 bilhões em emissão de boletos.

Ao se falar de boletos, poderemos potencialmente ver uma redução do uso do mesmo, principalmente no e-commerce. De acordo com dados da AMI, 17% (ou 6,5 bilhões de dólares) de todos as compras de e-commerce realizadas no Brasil em 2019 foram pagas via boletos.  Considerando que o Pix permitirá o  pagamento instantâneo, inclusive em feriados e fim de semana, os consumidores não precisarão gerar boletos e esperar o próximo dia útil para finalizar suas compras, o que potencialmente irá reduzir os pagamentos via boleto.  Se esta tendência se confirmar, o Pix poderá ajudar a mitigar um dos principais problemas do e-commerce no Brasil, dado que o pagamento via boleto gera um problema logístico aos vendedores que reservam a mercadoria enquanto o pagamento se confirma, mas muitas vezes o pagamento não é realizado.

Ainda não se tem definido a curto prazo um incentivo forte que justifique a adesão ao Pix pelas  instituições da indústria de pagamentos, pelo contrário pois por não poderem cobrar tarifas dos usuários, soferão desde o início uma perda da receita.

Pensando mais a longo prazo, a hipótese é que o Pix irá sim beneficiar as instituições e o sistema financeiro dado que promoverá a captura de transações que hoje estão fora do sistema de pagamentos, como as transferências P2P realizadas em sua maiora em dinheiro. Assim sendo, promoverá um maior nível de digitalização e engajamento dos clientes com a instituição escolhida para o registro da chave. E isto sim, tende a ser uma grande vantagem em se aderir ao Pix, pois permitirá que as instituições obtenham mais dados e informações sobre o seu cliente. Assim, as instituições que conseguirem trabalhar melhor e mais estrategicamente estes dados, terão uma maior capacidade de desenvolver e oferecer produtos e serviços cada vez mais adequados e que gerem valor aos clientes, o que é a chave da fidelização.

Em resumo,  a adesão ao Pix provavelmente trará vantagens competitivas às instituições participantes mas não imediatamente. Por outro lado a não adesão,  é seguramente uma desvantagem, dado que deixa tal participante fora do início do jogo, momento em que as maiores decisões estão sendo tomadas, e potencialmente atrás na posterior corrida em busca da fidelização.

A corrida pelas chaves

Em 5 de outubro será iniciado o cadastramento das chaves no sistema do Banco Central. O que se tem observado desde o princípio de setembro é uma movimentação dos maiores players da indústria de pagamento que lançaram campanhas com caráter educativo sobre o Pix, mas com um viés convidativo para que os clientes realizem o cadastro das chaves.

Mas porque esta movimentação? Atualmente é comum os recebedores de pagamento perguntarem aos pagadores qual a instituição eles preferem para fazer uma transferência/pagamento. Isso porque transferências entre as mesmas instituições são gratuitas, se realizam mais rapidamente e com horário estendido. Assim sendo, os recebedores , pessoas física e jurídica, tendem a ter mais de uma conta para darem opção de escolha aos pagadores. Comportamento semelhante ao dos usuários de celular na américa latina, que normalmente tem mais de uma linha telefônica em operadoras distintas para aproveitar o benefício de ligações e mensagens ilimitadas e sem custo entre linhas da mesma operadora.

            Com Pix, isso não fará mais sentido e portanto perde-se um dos maiores incentivos que ainda hoje faz com que os pagadores/recebedores tenham mais de uma conta bancária.  Ou seja, com o Pix pode-se ocorrer uma consolidação nas contas bancárias levando os usuários a optarem por manter seu relacionamento com sua conta primária e consequentemente usando-a de maneira mais frequente, aumentando o seu engajamento. Neste caso, as instituições que não foram escolhidas pelos clientes no cadastro das chaves, irão perder a lealdade de seus clientes.

Neste ambiente ainda cheio de incertezas em que as regras não foram todas definidas,  aliado a iminente perda de receita por parte das instituições, o que estamos vendo é o início de uma corrida entre as instituições para garantir o registro das chaves dos clientes.

Além das campanhas educativas, a maioria das instituições como Original, Nubank, Inter, Bradesco, Santander e Neon já iniciaram um pré cadastro de chaves em seus canais eletrônicos e no dia 05 de outubro farão o cadastro automático no Pix. Outras como Itaú, C6, Caixa Econômica seguem com as campanhas mas mencionam que cadastro de chaves começará em 05 de outubro, seguindo calendário do Pix.

Uma outra corrida é a busca por mostrar os diferenciais competitivos do “Pix” de cada player, como por exemplo:

(i) Santander: que criou uma marca própria SX que é “o Pix do Santander”, e promete vantagens especiais para clientes, mesmo que ainda não divulgadas.

(ii) Nubank que foi o primeiro a anunciar isenção de custo para todos : ”Pix no Nubank é 100% gratuito para todos, inclusive pessoas jurídicas”.

(iii) Banco C6 recentemente anunciou que dará pontos do seu programa de fidelidade “Átomos” para os clientes que realizarem pré cadastro da chave, por e-mail ou número do celular, com C6. 

No final, o Pix  é um meio de pagamento que deverá coexistir com os demais. Seguindo esta mesma linha disruptiva, acompanhamos recentemente a novela do Whatsapp Pay, que por enquanto está na fase de testes, após o bloqueio inicial do Banco Central e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE).

Pix Vs. WhatsApp

Ambos, são novidades que prometem revolucionar a experiência de pagar e receber dos brasileiros.  A grande diferença é que o Whatsapp tem uma marca muito forte e conhecida, sendo usado por 130 milhões de brasileiros, o que torna a adoção do serviço de pagamentos mais rápida e simples. O Pix ainda não tem nem uma marca,  nem uma base de usuários relevante e as suas regras ainda não estão todas definidas, mas segue um formato de pagamento/ transferência mais conhecido e já amplamente usado pelos brasileiros, a TED.

Além disso, o Pix, pelo menos a princípio, deve ter uma maior adesão da população já bancarizada que sabe realizar TEDs; o WhatsApp Pay, apesar de requerer um cartão de débito no arranho divulgado, deve ser mais popular entre os consumidores que estão iniciando a jornada de inclusão financeira e que estão muito acostumados ao uso do WhatsApp.

Muito ainda está por vir, más por enquanto seguiremos monitorando as evoluções no âmbito da implementação e início do Pix. Também acompanharemos os novos passos dos participantes da indústria de pagamento na luta de conseguir algum diferencial competitivo e suas promoções de  experiências exclusivas aos clientes. Isso nos leva a uma única conclusão: os consumidores serão os maiores beneficiados e seguramente vivenciarão uma  experiência de pagamento cada vez mais simples, rápida e com nenhum ou menor custo.


[1] A sigla P2P é a abreviação da expressão inglesa “Person to Person”, que traduzindo significa “Pessoa para Pessoa”. Dessa forma, os pagamentos  P2P  são os que acontecem entre duas pessoas sem o intermédio de terceiros.

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