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No Brasil, os neobancos vêm desempenhando um papel relevante – e até decisivo – na forma como as pessoas gerenciam suas finanças. Segundo análise da Americas Market Intelligence (AMI), a taxa de bancarização da população adulta é de 94%, o que inclui carteiras digitais. A AMI estima ainda que 88% dos adultos brasileiros fazem compras pela internet.

Isso, porém, não reflete o que os brasileiros sentem em relação ao seu dinheiro. Um levantamento do Datafolha e C6 Bank indica que pelo menos 61% da população brasileira têm sentimentos negativos em relação ao dinheiro. Ao mesmo tempo, dados da Febraban revelam que 70% dos brasileiros gastam mais do que ganham.

A equipe de pagamentos da AMI realizou há alguns dias o evento on-line AMI Payments Coffee Chat, em que conversou sobre essas questões com Eduardo Del Guerra Prota, CEO da N26 no Brasil. A N26 é um banco digital de prestígio mundial que está presente em 24 países europeus e foi lançado recentemente no Brasil.

Eduardo Del Guerra Prota

CEO, Brasil

N26

Com base na sua experiência no Brasil, como você caracterizaria a relação atual das pessoas com os bancos?

A maioria dos brasileiros deseja mudar de banco – seja ele digital ou tradicional – porque essas instituições negligenciaram um fator muito importante para o cliente: a ansiedade financeira.

Como mencionado acima, 61% da população do país associam o dinheiro a sentimentos negativos. Os brasileiros também controlam muito mal seus gastos, já que 70% afirmam gastar mais do que ganham.

De acordo com avaliações da N26, a ansiedade financeira está relacionada a três aspectos que os bancos brasileiros não têm abordado adequadamente. Em primeiro lugar, seus produtos são voltados para o homo economicus, ou seja, o segmento da população que conhece a fundo as ferramentas financeiras. No entendimento da N26, as pessoas são homo emotionalis e esse conceito deveria se aplicar também à sua realidade bancária.

Em segundo lugar, o foco dos produtos e serviços bancários são empréstimos, benefícios econômicos e incentivos que acabam estimulando gastos constantes e muitas vezes descontrolados. Essa abordagem não ajuda a criar uma relação saudável com o dinheiro, caracterizada pelo equilíbrio entre o que se ganha e o que se gasta.

Por fim, os produtos e serviços bancários de hoje não estão centrados na comunidade, mas no indivíduo. E os indivíduos fazem parte de comunidades totalmente conectadas por redes sociais e fóruns on-line.

A N26 está criando a “segunda geração” de bancos digitais no Brasil. O que isso significa?

Na experiência da N26, por ser um mercado maduro, o Brasil teve uma primeira onda de fintechs que ajudaram a impulsionar a digitalização da população e dos bancos tradicionais e deram às pessoas acesso aos serviços financeiros. Por outro lado, essa geração priorizou a ampliação do acesso mas sem necessariamente satisfazer as necessidades da população, não promovendo, portanto, o uso adequado dos produtos e serviços financeiros.

Como afirma Eduardo Prota, CEO da N26 no Brasil: “Na N26, estamos criando uma segunda geração de bancos digitais para melhorar a relação dos brasileiros com o dinheiro, buscando empoderá-los e não deixá-los frustrados. Em outras palavras, estamos buscando combater a ‘ansiedade financeira’, algo que as outras instituiçõesnão conseguiram fazer”.

Para chegar a essa conclusão, vale a pena dar um pouco de contexto. A N26 chegou ao Brasil em 2019, ainda que os planos da empresa tenham sido adiados pela pandemia. Nos últimos anos, a N26 vem se dedicado exclusivamente a estudar a relação dos brasileiros com suas finanças. No Brasil, a empresa criou um programa chamado Insider, que consiste em um fórum dentro do aplicativo no qual os membros da comunidade falam diariamente sobre as melhorias e funcionalidades que gostariam que a N26 implementasse. Isso gera informações valiosas sobre as necessidades dos usuários, permitindo que a N26 ajuste suas soluções de acordo com essas demandas. Há alguns meses, a N26 criou uma lista de espera para clientes que já conta com 300 mil inscritos.

Graças a esse diálogo com os “insiders”, a N26 conseguiu alcançar o que eles chamam de “segunda geração”, ou seja, a oferta de serviços financeiros centrados nas finanças pessoais. Todos esses conceitos se baseiam na metodologia de criação conjunta com a comunidade.

De que maneira específica a N26 está tratando a “ansiedade financeira”?

A N26 criou essa nova categoria e a batizou de fincare. Como explicado, fincare vem do termo skincare (palavra em inglês que significa cuidados com a pele), algo que antes fazia parte da rotina de pouquíssimas pessoas e que atualmente quase todas as pessoas já incorporaram ao seu dia a dia. Em outras palavras, a N26 quer ajudar os brasileiros a se conectar melhor com suas finanças, cuidar da sua relação com o dinheiro. O objetivo da empresa não é competir com fintechs ou fornecer uma linha de produtos, mas sim ajudar as pessoas a fazer melhores escolhas e adotar novas e melhores rotinas.

O aplicativo N26 é um fórum de cocriação. Além disso, a plataforma tem uma lista de espaços ou “orçamentos” para as pessoas agruparem adequadamente suas despesas e economias.

Para tornar a iniciativa mais humana, o kit de boas-vindas vem em seis versões diferentes, trazendo imagens produzidas por artistas locais que representam sua relação com o dinheiro.

Por fim, a N26 criou um sistema de benefícios chamado Modo N. Funciona assim: a cada R$ 100 pagos na fatura do cartão, a N26 oferece mais 1% de rendimento do valor investido. Os usuários começam com uma taxa de juros de 100% do CDI, que pode chegar a 200% dependendo do volume de gastos. Segundo Eduardo, “a ideia é encontrar um equilíbrio entre gastar e guardar”.

E como tem sido a concorrência no mercado brasileiro? É verdade que é um mercado altamente monopolizado?

Eduardo: Quando iniciamos nossas atividades no Brasil, percebemos um mundo de possibilidades para o desenvolvimento local de tecnologias e estratégias de pagamento. Foi aí que decidimos identificar as necessidades específicas do mercado brasileiro, que são totalmente distintas das condições na Europa, onde já lançamos outros produtos financeiros.

A realidade é que existem pelo menos 1,5 mil fintechs atuando no Brasil, o que se traduz em concorrência de preços, custos de aquisição elevados e dificuldade de monetização. Além disso, os concorrentes tradicionais estão sempre buscando reafirmar sua posição no ecossistema. Foi por essas razões que decidimos fazer análises de mercado minuciosas e conversar diretamente com os usuários. Graças à nossa metodologia de cocriação e à estratégia de implementar tecnologias e estratégias locais, conseguimos desenvolver uma proposta de valor inovadora e competitiva.

Sobre a N26

A N26 é um banco digital de prestígio mundial. A instituição, que iniciou suas atividades na Alemanha e está presente hoje em 24 países europeus, conquistou recentemente o primeiro lugar no ranking da Forbes dos melhores bancos do mundo.

A N26 chegou ao Brasil em 2019 e está iniciando suas operações no país em 2022.

Próximos passos

Entre em contato com a Americas Market Intelligence (AMI) para obter uma pesquisa detalhada sobre os concorrentes fintechs no Brasil e em outros países da América Latina. Estamos em contato com atores estratégicos da região, entre os quais a N26. A AMI também pode elaborar e implementar um estudo personalizado centrado em soluções que permitam à sua empresa minimizar os riscos e aumentar as chances de sucesso.


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